Nenhum país consegue definir seu próprio destino sem planejamento, visão estratégica e investimentos de longo prazo. O desenvolvimento não nasce do improviso nem da soma de interesses individuais, mas da capacidade do Estado de orientar recursos para obras estruturantes que transformem a economia, reduzam desigualdades e fortaleçam a soberania nacional. Quando essa capacidade é perdida, o futuro também entra em risco.
Hoje, porém, o Brasil enfrenta uma grave distorção. Uma parcela significativa do orçamento público vem sendo distribuída de forma fragmentada, individualizada e orientada por interesses políticos imediatos, sem conexão com um projeto estratégico de nação. O que deveria sustentar políticas nacionais articuladas transforma-se em moeda de negociação, esvaziando o papel planejador do Estado.
Nesse modelo, o orçamento deixa de ser instrumento de desenvolvimento e passa a cumprir função de governabilidade. Em vez de definir prioridades nacionais — como infraestrutura, mobilidade, saneamento, transição energética, ciência e tecnologia —, os recursos são pulverizados em milhares de ações desconectadas, muitas vezes sem planejamento técnico, sem integração territorial e sem impacto estrutural.
O resultado é visível: obras inacabadas ou paradas, investimentos dispersos, desperdício de recursos e ausência de transformação real. Estradas que não se conectam, equipamentos públicos sem política estruturada e projetos isolados que não dialogam entre si revelam um Estado incapaz de pensar o país como totalidade.
Essa lógica aprofunda desigualdades regionais. Territórios com maior força política capturam mais recursos, enquanto regiões historicamente vulneráveis permanecem excluídas dos grandes investimentos. O orçamento, que deveria corrigir assimetrias, passa a reproduzi-las ou amplia-las.
Ao abrir mão do planejamento de longo prazo, o país compromete também sua soberania. Sem obras estruturantes e sem estratégia nacional, o Estado se torna refém do curto prazo, das crises recorrentes e das pressões externas. A política pública passa a responder à urgência do momento, não ao futuro coletivo.
A disputa orçamentária, assim, substitui o debate sobre o modelo de desenvolvimento. Já não se discute que país se quer construir, mas quem controla parcelas do fundo público. O interesse nacional cede lugar à negociação permanente, enfraquecendo a democracia e a confiança da sociedade.
Recuperar a capacidade de planejar o desenvolvimento exige enfrentar essa distorção. É preciso recolocar o orçamento a serviço de um projeto de nação, fortalecer políticas que garanta reformas estruturantes e romper com a lógica da fragmentação politiqueira e fonte principal da corrupção e da manutenção dos famigerados currais eleitorais construídos e consolidados através das tais emendas, impositivas, pix e etc. Sem isso, o país seguirá administrando o presente, enquanto o futuro permanece suspenso. E para isso é fundamental a mudança radical do perfil do Congresso Nacional.
Delso Oliveira Andrade
Janeiro de 2026 2ª quinzena
