Os 400% do cartão de crédito. Dos cerca de 100 milhões de brasileiros possuidores de cartão de crédito, observou o novo ministro da Fazenda, Dario Durgan, pelo menos 40% estão com dívidas atrasadas e arcando com juros que chegam a mais de 400% ao ano. Além desse endividamento, há compromissos em atraso com muitas outras coisas, a conta da luz, a conta do telefone, a conta do wi-fi, o colétrio das crianças e assim por diante.
Pesquisas recentes dizem que a situação pode ter chegado a tal ponto que pelo menos um em cada dois brasileiros tem dívidas em atraso. Essa é a causa do desconforto que domina a classe média e que, por outras pesquisas, se mostra como um dos fatores do julgamento do governo Lula nas pesquisas de opinião. Lula não está indiferente a isso e tem com frequência mencionado o problema do endividamento da família brasileira como um de seus próximos alvos.
Ele já fez consultas discretas aos bancos sobre a possibilidade de reduzirem os juros do cartão de crédito e está claramente estudando outras alternativas. Não está claro ainda que medidas mais profundas o governo federal pode tomar para aliviar essa carga sobre o eleitorado de classe média. Mas alguma coisa, evidentemente, vai ser feita pelo governo porque no setor privado as iniciativas que vêm sendo adotadas vão das propostas de banco aos maiores devedores para que paguem a sua dívida com grandes deságios até a ingênua tentativa de submeter o povo brasileiro ao que chamam de um programa de educação financeira.
Esse programa de educação financeira vem se multiplicando com grande velocidade pela internet e até cursos presenciais são oferecidos. Também há projetos de incluí-los no currículo das escolas fundamentais desde o início de alfabetização das crianças. O objetivo de todos eles é ensinar as pessoas como gastar menos, menos do que ganham de salário ou de rendimento.
Na maioria dos casos, não passam de tentativas de fazer a pessoa vestir roupas dois números aquém do seu tamanho. A verdade é que a remuneração do trabalho no Brasil tem melhorado ao longo dos anos do governo Lula, mas ainda é muito pequena para satisfazer a necessidade de uma família. O que Lula quer é tornar, em primeiro lugar, a vida mais barata para todos.
O caso do diesel na guerra contra o Irã é um exemplo claro disso. O governo federal já zerou os impostos federais sobre o diesel e conseguiu a aprovação de governos estaduais para reduzir o peso dos impostos estaduais sobre o petróleo, peso que é de cerca de 20% o litro. Outra medida é aumentar o ganho das famílias brasileiras.
É o caso, por exemplo, do aumento do salário mínimo além da inflação, aumentando o seu poder aquisitivo real. Outro exemplo é o programa Pé de Meia, que paga a jovens estudantes para estudarem. Esse programa já tem 6 milhões de beneficiários, um número que pode aumentar ainda mais.
Mas o endividamento de cada uma em duas famílias exige, e Lula está atento a isso, medidas mais radicais. Pode ser que Lula esteja pensando em linhas de crédito com juros bem mais baratos para que as famílias recorrendo a esses créditos possam liquidar as dívidas que arcam com grandes juros. Pode ser que outras medidas de engenharia financeira estejam em cogitação à espera de amadurecerem para o governo anunciá-las.
De qualquer maneira, é uma luz no fim do túnel que já está sendo percebida. As terras raras e a submissão do Brasil. Enquanto o governo aprofunda os estudos para a sensata e soberana exploração das terras raras brasileiras, o senador Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos ofereceu a troco de nada como solução para os Estados Unidos não dependerem mais das importações de terras raras da China.
Falando numa convenção de grupos conservadores no Texas, Flávio ofereceu de maneira claramente submissa as imensas reservas do Brasil para que Trump enfrente com mais viabilidade a concorrência da China e seu avanço para se tornar o maior PIB do mundo. O objetivo não é tanto alimentar a bateria dos carros elétricos americanos, é conter o avanço da China e com o tempo, se possível, liquidá-la economicamente. Foi o que aconteceu com o antigo império soviético décadas atrás.
No Brasil, logo no início da batalha das tarifas, Lula determinou a realização de um inventário completo das reservas brasileiras de terras raras que são as segundas do mundo, inferiores apenas as da China. O Brasil deve ter 22% do conjunto das reservas de terras raras do mundo, mas só conhecia 30% delas. Hoje, esse inventário já deve ter progredido e o Ministério de Minas e Energia já está realizando reuniões com representantes de outros órgãos e ministérios para formular a proposta de criação de uma empresa estatal encarregada de explorar racionalmente e no interesse do Brasil as reservas de terras raras brasileiras.
Pode ser que não dê tempo de criar e colocar em ação essa empresa ainda antes da eleição deste ano. Se for este o caso, o projeto dessa empresa será com certeza uma das maiores prioridades do último governo Lula a partir de janeiro de 2027.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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