A crise dos pequenos municípios brasileiros não é um acidente administrativo, mas o resultado de uma lógica histórica de concentração econômica e política que beneficia as metrópoles e esvazia as periferias. À luz de Marx e Gramsci, compreende-se que o território é parte da luta de classes: enquanto os centros urbanos acumulam riqueza, os municípios menores tornam-se espaços de extração de recursos, exportação de jovens e importação de produtos caros, numa dinâmica em que o valor vai embora e a pobreza permanece. Essa estrutura transforma os gestores locais em administradores de carências, presos a políticas compensatórias que aliviam a miséria, mas não alteram suas causas.
A hegemonia cultural reforça esse processo: consolida a ideia de que o desenvolvimento “vem de fora”, que o local é fraco e que o futuro só existe para quem migra. Esse mito da cidade pequena inviável sustenta o fatalismo neoliberal que reduz o município a uma unidade burocrática sem autonomia fiscal, produtiva ou política. Ao naturalizar a dependência, impede-se que o território reconheça sua própria capacidade de agir.
Entretanto, existe outro caminho. Quando o desenvolvimento é pensado a partir do local — de sua cultura, memória, sujeitos e modos de vida — revela-se um potencial econômico ignorado/negado pelas lógicas do capitalismo. A economia de base familiar, popular e solidária demonstra que a produção local, o cooperativismo, os mercados de proximidade e as redes comunitárias são capazes de gerar riqueza, fortalecer laços sociais e ampliar a autonomia municipal. Trata-se de um modelo que recoloca o trabalho e a vida no centro, rompendo com a alienação territorial que faz comunidades produzirem o que não consomem e consumirem o que não produzem.
Superar o esvaziamento territorial exige uma nova matriz de desenvolvimento: descentralizada, enraizada no território e centrada nos sujeitos. É preciso disputar a hegemonia cultural que inferioriza os pequenos municípios e afirmar sua potência produtiva e social. Ao valorizar o que é local e fortalecer a economia de base familiar, popular e solidária, abre-se a possibilidade de transformar municípios periféricos em protagonistas de seu próprio futuro — não mais sombras das metrópoles, mas territórios vivos capazes de construir caminhos próprios de desenvolvimento.
Delso Oliveira Andrade
