Acabam de esbarrar num péssimo esclarecimento as promissoras notícias de que a indústria farmacêutica Merck conseguira desenvolver um antiviral específico contra a Covid e de que a FDA, a Food and Drug Administration, a Anvisa dos Estados Unidos já recebera o pedido de liberação emergencial desse produto.
Para o Brasil especialmente, essas notícias significavam a potencial liquidação do mito do Kit Covid e da cloroquina, ainda badalados por Bolsonaro e seus parceiros. A rápida verificação do êxito do antiviral da Merck, cujos testes já tinham sido um sucesso, transbordaria da mídia internacional para a mídia brasileira e ofereceria uma alternativa segura e indiscutível que logo não poderia ser negada nem pelo governo federal. Antes até que isso acontecesse, noticiou-se que a Fiocruz brasileira já tentava negociações para produzir aqui o antiviral.
Agora, porém, sabe-se que às boas notícias seguiu-se a revelação do preço que a Merck vai cobrar por seu antiviral. Como escreveu indignado o The Guardia, de Londres:
— Nós agora nos vemos diante de situações imorais como a notícia de que a gigante farmacêutica Merck planeja impor aos americanos o preço de 712 dólares por uma droga contra a Covid que custa apenas 17,74 dólares para ser produzida e cujo desenvolvimento foi subsidiado pelo governo americano.
Esses 712 dólares correspondem a 40 vezes o custo de produção do antiviral e se destinam, naturalmente, a pagar dividendos escandalosos aos acionistas da Merck e bônus obscenos a seus executivos. E esse é o padrão de comportamento predominante no capitalismo neoliberal de nossos dias, indiferente ao contexto social em que as coisas acontecem no mundo da economia.
Desse padrão decorre o agravamento da concentração de renda em todos os países, a ponto de, segundo um dos relatórios anuais da ONG Oxfam, que estuda e combate a fome no mundo, menos de 70 indivíduos controlarem metade da riqueza existente num planeta de 7 bilhões de habitantes.
A concentração de renda e o agravamento da desigualdade social têm preocupado até mesmo homens de grande riqueza, organizados nos Estados Unidos no grupo autointitulado de Bilionários Patriotas, que pediram publicamente, em carta ao New York Times, a adoção de impostos sobre as grandes fortunas para dar início a um processo de redistribuição de renda.
Esses bilionários não são figuras filantrópicas, penalizadas pela miséria subsistente num mundo de tanta abundância. São pessoas que percebem o perigo de uma situação que não pode subsistir por muito tempo mais e querem, entre outras coisas, preservar a própria fortuna. Exatamente o oposto do comportamento insensível dos bilionários pop e exibicionistas como Jeff Bezos, da Amazon, que em plena pandemia, e com todo sofrimento por ela infligido, encomendou um iate de 500 milhões de dólares.
Os preços pretendidos pela Merck têm no Brasil um paralelo que a grande mídia esconde: os preços cobrados pela Petrobrás, com a gasolina a mais de7 reais e o gás de cozinha a mais de cem. Não é o ICMS cobrado pelos Estados, como agora se alega, que determina os aumentos sucessivos: é o alinhamento dos preços internos às cotações internacionais do petróleo, sem qualquer correspondência com os custos produção, alinhamento que se destina a engordar os dividendos pagos aos acionistas privados da Petrobrás, muitos deles estrangeiros.
Tanto num caso quanto no outro, o comprador indefeso paga a remuneração parasitária dos ricos que se tornam ainda mais ricos à custa de tornar os pobres ainda mais pobres, em contraste com períodos em que modelos econômicos inspirados pelas tímidas ideias da socialdemocracia tentavam tornar os pobres menos pobres sem necessidade de tornar os ricos menos ricos.
Diante disso é difícil entender que o Século 21 ainda tolere um retrocesso como o que vivemos.
(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
