Com a direita aparentemente dividida em definitivo, uma parte dela não aceitando a candidatura de Flávio Bolsonaro, Lula pode organizar a própria campanha presidencial com a maior tranquilidade e sem qualquer trauma. Este ano, a campanha pode ser até mais senatorial do que presidencial. Lula está na frente de todas as pesquisas para a eleição presidencial, mas a direita, já há bom tempo, vem trabalhando na hipótese de ampliar sua maioria no Senado.
Com a maioria do Senado, a direita adquiriria o poder de paralisar o governo e também de ameaçar com impeachment ministros do Supremo, como Alexandre de Moraes. Essa ameaça aos ministros do Supremo foi contida, pelo menos provisoriamente, por uma liminar do ministro Gilmar Mendes num processo aberto pelo PSOL que impugnava a facilidade legal para a abertura de processos de impeachment no Congresso. Por essa legislação, bastariam vinte e poucos deputados em uma Câmara de mais de 500 para dar início a um processo de impeachment que seria julgado em definitivo pela maioria do Senado.
A liminar do ministro Gilmar Mendes alterou esse critério e exigiu um número bem maior de deputados para o início da responsabilização de qualquer ministro do Supremo. Quanto à paralisação do governo, que uma maioria direitista no Senado poderia precipitar, basta considerar o caso da vaga aberta no Supremo pela aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso. Lula indicou para a vaga o advogado-geral da União, Jorge Messias, o que não agradou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que queria a nomeação do senador Rodrigo Pacheco. Até agora, Lula não enviou ao Congresso a mensagem com a indicação de Messias. E a reabertura dos trabalhos do Congresso vai exigir uma nova negociação com Alcolumbre para que a nomeação de Jorge Messias não seja rejeitada pelo Senado.
Em busca, não de maioria no Senado, mas de reduzir a maioria direitista, Lula está trabalhando no momento na composição das chapas estaduais para o Senado. Nesta eleição, cada estado terá de eleger dois senadores, o que aumenta as chances da direita e da extrema-direita. Em São Paulo, que parecia ser o caso mais complicado, Lula já encaminhou uma solução.
As candidaturas da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e da ministra do Planejamento, Simone Tebet. Marina já foi senadora e atualmente é deputada licenciada e tem tal presença nacional que suas chances agora para o Senado em São Paulo podem ser muito convincentes. Simone já foi senadora pelo Mato Grosso do Sul e Lula considera que ela pode ser uma grande candidata, porque revelou na eleição presidencial de 2022, um grande poder de argumentação nos debates com outros candidatos.
Marina e Simone são candidatas porque Lula pediu que fossem. Aliás, ele está pedindo a todos os seus ministros que façam o sacrifício, se for necessário, de voltar aos seus estados e concorrer à eleição. O ministro da Educação, Camilo Santana, deve voltar ao Ceará para disputar o governo do estado que já exerceu e do qual saiu deixando ótima impressão.
O ministro do Gabinete Civil, Rui Costa, que já foi governador da Bahia, deve voltar ao seu estado para disputar novamente o governo. Com essas candidaturas fortes aos governos estaduais, Lula pretende ter nesses estados um palanque suficiente para melhorar sua votação e também para eleger pelo menos um dos senadores. No Rio, Lula tem um bom candidato ao governo, que é o prefeito Eduardo Paes.
Com base na força de Eduardo Paes e na sua própria força, Lula vai precisar de candidatos ao Senado que enfrentem a candidatura do atual governador, Cláudio de Castro. Um estado bem complicado é Minas, que tem um grande eleitorado. Lá, Lula gostaria de ter como candidato a governador o senador Rodrigo Pacheco, mas Pacheco não está disposto a disputar essa eleição.
Se conseguir a candidatura de Pacheco ou outra candidatura promissora, Lula montará em torno dela as candidaturas ao Senado. Esses são exemplos das dificuldades que Lula vai enfrentar, muito mais para a batalha para o Senado do que para a batalha por sua reeleição. Enquanto isso, ele continua atuando com muita presença tanto nas questões de política nacional, como a questão eleitoral, quanto nas questões de política internacional.
Numa conferência de países latino-americanos e do Caribe na cidade do Panamá, Lula apresentou uma proposta que ainda não teve a merecida repercussão no Brasil. Como se sabe, Trump já anunciou a disposição de assumir o controle do canal de Panamá, alegando que ele atualmente está sendo operado por militares chineses. Na verdade, são empregados civis de uma empresa chinesa que tem alguns serviços terceirizados na operação do canal.
Recentemente, o governo do Panamá se retirou do projeto chinês da Rota da Seda, ao qual tinha aderido pouco antes. Lula deve ter consultado também os países integrantes do BRICS, caso da China, que está em suspenso depois que o Panamá foi pressionado a sair da Rota da Seda. A proposta de Lula para o canal do Panamá é internacionalizá-lo, o que protegerá o Panamá de novas investidas de Trump.
Em conjunto, as atitudes de Lula nas relações internacionais têm sido a defesa da multilateralidade contra a unilateralidade que Trump tenta impor. A internacionalização do canal do Panamá atingiria esse objetivo e com o apoio de países como os do BRICS, a China, a Índia, a Rússia, a África do Sul, dificultaria muito qualquer nova investida de Trump.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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