Me inquietava, angustiava e indignava ver aquelas e aqueles estudantes saltando a cerca, colada no muro lateral do hospital Dr. José Borba, pra terem acesso a escola.
Mais ainda saber que várias mulheres, por não terem habilidade na escalada do obstáculo, se deslocavam até a rua do fundo do cemitério pra pegarem a Av. Roberto Santos, numa caminhada que praticamente triplicava a extensão normal do bairro Malvão até o Polivalente.
Até que, solitariamente, encontrei a solução. Radical.
Consistiria simplesmente em recuar a cerca por aproximadamente dois metros.
Pronto!
Estaria aberto o corredor a fim de que tod@s pudessem nele transitar sem transtornos.
Como tinha que ser, em nome da ética e do respeito, apresentei a proposta pras vice-diretoras.
As quais discordaram, escudadas no maldito e emperrador burocratismo, aliado incondicional da apatia:
— Tem que pedir autorização da Secretaria da Educação em Salvador — disse uma delas.
Retruquei afirmando que a Secretaria tá se lixando pro que tá ocorrendo nesta escola, incrustada numa cidadezinha da Bahia profunda. Cambada aboletada nos seus gabinetes refrigerados, só tem olhos pra capital, pro recôncavo e pro sul cacaueiro.
Consegui convencer as, digamos, companheiras.
Pra botar o plano em ação, convidei dois grandes amigos: Manoel do Cal e Lindofo Leal, moradores do já citado Malvão e da Sambaíba [este também próximo do JRM], respectivamente.
Eles ficariam encarregados de mobilizar, nos seus redutos, uns vinte camaradas pruma reunião na biblioteca do estabelecimento.
Pessoas capacitadas na arte de fazer cerca de arame farpado, assim como Manoel e Lindolfo eram expertos.
De fato, mobilizaram, naqueles dois populosos e populares bairros, a vintena solicitada por mim pra fazerem parte do iminente mutirão.
Que aconteceu num domingo ensolarado de um verão como este que estaremos curtindo até que venham as águas de março.
O arranque se deu pontualmente às 7.
Cinco horas depois a empreitada fora concluída. Com êxito total.
Pros trabalhadores reporem as energias consumidas naquela tarefa, duas amigas expertas na arte culinária prepararam uma estupenda feijoada, banquete pra quatrocentos talheres…
Não sem antes a turma, eu incluído é claro, entornar meia dúzia de litros da famosa branquinha, brejeirinha importada do Brejão.
Foi a Vitória do Corredor!!!
Área nobre encravada em pleno sertão, diferente daquela situada na metrópole.
Biblioteca Campesina, 17fev25
Ação Cultural 1″ SEMINÁRIO DE ANIMAÇÃO CULTURAL E DE LEITURA / PREFEITURA DE BELO HORIZONTE – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
