Vicente Rauber*

Há um ano ocorria a maior catástrofe climática do RS, inundando grande parte dos municípios integrantes da Bacia do Guaíba. O evento não aconteceu isolado, foi antecedido por duas inundações significativas em setembro e dezembro de 2023, na mesma região.
Os municípios são os responsáveis pelo saneamento básico, no qual drenagem urbana e proteção contra inundações estão incluídos, sabiam ou deveriam saber, das precariedades de suas cidades, para quaisquer eventos de chuvas maiores. A defesa civil também é insuficiente. Precisa ser ampliada, especialmente com maior integração com todas as estruturas públicas e privadas ligadas à atividade.
À exceção é Porto Alegre, que possui um sistema de drenagem grande, para retirar águas e esgotos gerados dentro da cidade, e possui um Sistema de Proteção contra Cheias, para impedir que o Guaíba invada a Cidade, capaz de proteger a Cidade, suficiente para elevações do Guaíba de até 6,0m de altitude, as águas de maio-24 chegaram a 5,37m de altitude, viu a Cidade inundada, com prejuízos humanos e de toda ordem, como nunca antes na sua história.
Mas o que houve? As Comportas e as Casas de Bombas sem a necessária e corriqueira manutenção há anos e os Sistema de Drenagem com canalizações obstruídas e arroios sem os cuidados necessários.
Sem manutenção nada funciona. E quando é de interesse público é de responsabilidade pública.
Durante o evento, 48 profissionais e ex-dirigentes do setor, apresentaram às autoridades e à população um diagnóstico dos problemas e mostraram soluções adequadas. Até hoje estão sendo atacados e ignorados. Várias medidas, boa parte erradas ou descabidas, estão sendo realizadas. As medidas urgentes sugeridas estão longe de serem concluídas. Tomara que não tenhamos outras chuvas volumosas a seguir, porque a Cidade estará novamente inundada.
Em 1973 um “Grupo de Águas Pluviais”, ao analisar a situação de Porto Alegre, verificou que 40% da área urbana era alagável, que havia um enorme sistema de drenagem a implantar e conservar, que havia mais de 20 arroios a cuidar, que havia um enorme Sistema de Proteção contra cheias a conservar, e chegou à conclusão da necessidade de criação do DEP. Também verificou-se que esta estrutura não deve estar junto ao DMAE, porque este tem suas atividades custeadas pela nossa tarifa de água e esgoto, não sendo legal utilizá-la para outra finalidade. Como o DEP fez falta (e continua fazendo) em maio-24! A sua extinção em 2017 foi um retrocesso de 44 anos!
A extinção do DEP foi um retrocesso de 44 anos, a privatização do DMAE será igual ou pior.
Assim como será um retrocesso privatizar parcial ou totalmente o DMAE, que basta ser bem administrado para, em curto tempo novamente universalizar o abastecimento de água e acelerar a coleta e o tratamento de esgotos. O que precisa parar é o proposital sucateamento de toda área do Saneamento, incluindo o DMLU (limpeza urbana), para criar junto à população a “justificativa” de extinguir e privatizar o setor “porque não funciona”.
Olhando para o Planeta, nos recentes anos vimos catástrofes climáticas amplas e repetidas como nunca antes: (i) tempestades e tornados em todos os continentes, queimadas na famosa Los Angeles, terra de Hollywood, com florestas e regiões urbanas destruídas. Os poderosos EUA foram incapazes de contê-las; (ii) imensas queimadas na Amazônia e Cerrado; (ii) duas secas seguidas na Amazônia, maior reserva de água doce do mundo, secando rios, matando uma incontável quantidade de peixes e deixando pescadores sem comida e trabalho. Logo na Amazônia, incomparável reserva ambiental do Planeta, que desejamos (e devemos) gerir, até porque precisamos diretamente dela. Suas florestas, através da evapotranspiração, geram grandes blocos de nuvens, os rios voadores, que, através dos ventos, fazem as chuvas chegar a diversos pontos da América do Sul, e cujo destino brasileiro favorito é o populoso sudeste brasileiro. As derrubadas e queimadas influenciam diretamente a formação e o deslocamento dos rios voadores. Por nenhum acaso, temos seguidas secas e volumosas chuvas em São Paulo e região.
O que está acontecendo com o meio ambiente do Planeta?
Mas o que está acontecendo em nosso Planeta? A pergunta mais adequada é o que está ocorrendo com o meio ambiente do Planeta?
Nossos formas de produção e de vida há muito vem gerando um excesso dos gases de efeito estufa – GEEs – que aumentam a camada de ozônio, a 30 km acima do solo da terra, o que faz que seja retido calor solar em excesso, sobreaquecendo o planeta. O que coloca a natureza, reguladora do nosso clima e chuva, em colapso, não só degelando as geleiras dos pólos da terra e aumentando o nível dos mares, como provocando cada vez mais desastres climáticos. A temperatura média do Planeta continua aumentando. Precisamos urgentemente reduzir intensamente a emissão de GEEs, ou o Planeta colapsará!
ANA E INPE avisaram: as catástrofes virão mais fortes e mais vezes.
A ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico – e o INPE – Instituto Nacional de Pesquisa Espacial – já alertaram que as catástrofes climáticas serão maiores e mais frequentes, especialmente no RS.
Todos os países, com ou sem acordo, precisam agir. Ao mesmo tempo precisamos nos preparar melhor e auxiliar a natureza a recuperar-se.
O Brasil possui a matriz elétrica – conjunto de recursos usados para gerar energia elétrica – mais renovável do Mundo.
Porém, está entre os 10 maiores geradores de GEEs. O maior percentual (aproximadamente 45%) decorre dos desmatamentos, queimadas e degradação de nosso biomas. Tivemos grandes avanços em 2024, quando, em relação a 2023, houve redução de 70% das queimadas e 32,4% dos desmatamentos. Não há nada que justifique a existência destas práticas, mesmo quando não provocadas por ação humana, são uma verdadeira questão de segurança nacional e com o tal devem ser tratadas.
Desflorestamentos e queimadas precisam acabar, a agricultura precisa mudar
O segundo percentual (aproximadamente 25%) decorre das práticas agrícolas e pastoris. A solução é a implantação mais rápida do Plano ABC – Agricultura de Baixo Carbono – cujas práticas foram objeto e ratificação em várias COPs – reunião anual do países -. Possibilita produzir mais e melhor com custo menor, senão imediatamente, no médio prazo.
Os municípios, especialmente os grandes centros, merecem uma análise e ações especiais. A emissão dos GEEs nestas regiões, em nada menos de dois terços, decorre, da queima dos combustíveis fósseis – gasolina e óleo diesel – principalmente (aproximadamente 20% na participação nacional). A solução, além de uma melhor gestão do transporte, está na substituição dos veículos à combustão por veículos elétricos, que não geram GEEs e praticamente não causam ruídos. Anotem: serão uma das revoluções de nossa época.
Ainda no meio urbano, redução de GEEs e da poluição e aumento da qualidade de vida é gerada pelo atividades ambientais e de saneamento básico. Aliás ambos devem ser realizados integradamente. Precisamos de muito mais árvores em todas as cidades. O exemplo de Medellin (Colombia) precisa ser considerado. Lá, em 2016 ocorreram 1971 mortes precoces causadas pelo calor e poluição. Hoje estão implantados 30 corredores verdes e Medellin é premiada internacionalmente como “a cidade de eterna primavera”. Solução simples, eficiente e encantadora.
Veículos elétricos, árvores e saneamento básico mudam a vida das cidades. O Planeta agradecerá.
Os municípios precisam efetivamente assumir o saneamento básico, como determina a Constituição e várias leis, especialmente o Marco Legal do Saneamento Básico. Obviamente estados e união precisam participar.
No próximo Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, devemos todos(as) debater como salvar a vida no Planeta.
Hoje, mais do que nunca, o meio ambiente afeta a vida de todos(as), principalmente os(as) mais pobres.
No próximo dia 05 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, cabe a todos(as) tomar consciência e debater como salvar a vida no Planeta Terra.
*Engenheiro Especialista em Planejamento Energético e Ambiental.
– Gestor Público e de empresas
– Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental
Em Porto Alegre
– Ex-Diretor do DEP – Departamento de Esgotos Pluviais (em dois períodos);
– Coordenador do Fórum Municipal de Saneamento e Meio Ambiente;
– Co-fundador do Comitê da Bacia do Rio Gravataí;
– Ex-Diretor do Demhab – Departamento Municipal de Habitação;
– Criador do Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia.
No Estado RS
– Diretor Presidente e Conselheiro de Administração da CEEE – Companhia Estadual de Energia Elétrica;
– Conselheiro de Administração da CGTEE e SULGAS;
– Diretor do BANRISUL – Banco do Estado do RS.
Na União
– Diretor da Petrobras/REFAP
– Assessor Esp da INNOVA;
– Conselheiro de Administração do ONS – Operador Nacional de Energia Elétrica – e do MAE – Mercado Atacadista de EnergiaElétrica.
