A crise que atravessa os pequenos municípios brasileiros não é fruto de má gestão isolada, mas de um processo histórico que concentrou riqueza, serviços e infraestrutura nas grandes cidades, deixando vastas regiões do país em condição de dependência estrutural. Inspiradas em Marx e Gramsci, as análises territoriais mostram que o desenvolvimento nunca é neutro: ele expressa relações de poder que definem quem produz, quem lucra e quem perde. Nos municípios menores, isso se traduz na exportação de recursos naturais e de mão de obra jovem, enquanto quase tudo o que se consome precisa ser importado a preços elevados. O resultado é conhecido: o valor gerado localmente não permanece no território, aprofundando desigualdades e fragilizando a autonomia municipal.
Essa dinâmica econômica é sustentada por uma hegemonia cultural que naturaliza a ideia de que “o desenvolvimento vem de fora”. Repetido por décadas, esse discurso cria o mito da cidade pequena inviável, reforçando o fatalismo neoliberal que transforma prefeitos e gestores em meros administradores da escassez. Sem base econômica sólida, muitos municípios tornam-se dependentes de transferências e programas compensatórios, encarregados de gerir a pobreza — não de superá-la.
Porém, romper esse ciclo exige revisar não apenas políticas, mas concepções. Quando o desenvolvimento é pensado a partir do território, reconhecendo suas culturas, saberes, vocações e práticas de trabalho, emerge um potencial frequentemente invisibilizado. A economia de base familiar, popular e solidária demonstra que outra lógica é possível: uma economia que gera renda distribuída, fortalece laços comunitários e amplia a capacidade de decisão local. Cooperativas, associações, agroindústrias familiares, mercados de proximidade, cadeias curtas de alimentos e iniciativas de economia circular mostram que o território pode produzir, transformar e comercializar com autonomia.
Essa alternativa não idealiza o local, mas o compreende como espaço de inovação social. Ao recolocar o trabalho vivo no centro e estimular a organização coletiva, ela combate a alienação territorial que faz municípios consumirem o que não produzem e produzirem o que não consomem. A economia solidária revê essa ruptura entre vida, produção e território.
Para que os pequenos municípios deixem de ser vistos como espaços atrasados, é preciso disputar a hegemonia cultural que reduz seu papel. Valorizar o que é local — sua agricultura, seus saberes, sua criatividade, suas redes — significa construir uma outra matriz de desenvolvimento: descentralizada, sustentável, inclusiva e capaz de criar oportunidades onde antes havia apenas saída. Ao fortalecer a economia solidária, o município passa a ser não apenas gestor de políticas sociais, mas indutor de um novo projeto de desenvolvimento, construído de dentro para fora, com participação popular e protagonismo territorial.
Delso Oliveira Andrade
