Era dia de Carnaval.
Garoa persistente.
Major José Borba, rua central de Santa Maria.
No pátio dianteiro de uns 20m2, um cubículo de 2x1m abrigava em três caixotes de maçã, “estantes”, alguns poucos livros.
Naquele 15 de fevereiro de 1980 duas dezenas de jovens entre 20 e 30 anos promoviam a arrancada da que iria, no transcorrer de poucos anos, se transformar na mais importante biblioteca do oeste e uma das melhores da Bahia.
Estou falando da Campesina.

Nem de longe aquele coletivo poderia imaginar que estava exercendo papel protagônico na revolução cultural que se alastrou como rastilho de pólvora por toda a extensão do Vale do Rio Corrente.
Passadas essas quatro décadas mais seis anos, a Campesina continua firme, feito estaca que, como sabemos, quanto mais se bate mais se firma. Citando Clodomir Morais: é madeira que cupim não rói; mais que uma biblioteca, é também um centro cultural, de documentação e pesquisas.
Foram, nesse largo período de existência e resistência, centenas de perseguições de todos os tipos que a cara leitora e o caro leitor possam imaginar.
Até um agente [araponga] do Serviço Nacional de Informações [SNI] andou por nossa aldeia em 1983, bisbilhotando a Biblioteca, o jornal O Posseiro e consequentemente quem ora essas linhas redige.

Ao fim e ao cabo, vencemos
Por ser revolucionária, justa e pura a nossa causa.
Comemoremos, portanto, com muito júbilo mais este cumpleaños da nossa amada e idolatrada Campesina, Patrimônio Cultural do Brasil.
Biblioteca Campesina, 15 fevereiro 2026
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
