Por Adeli Sell
Santa Cruz do Sul, cidade de colonização germânica, fica a 152 km de Porto Alegre. Tem uma conhecida e conceituada Universidade, a Unisc. Conhecida por sua Oktoberfest. Famosa por suas cucas.
Com a palavra Mauro Ulrich, do Jornal Literário Sarau:

P – Você é jornalista. Tem anos de “estrada” no jornalismo cultural em jornais do interior nos quais fazias muito este segmento. Fala um pouco dessa caminhada.
R – O meu ingresso no jornalismo se deu quase que ao mesmo tempo em que fui aprovado no vestibular para cursar a universidade. E isto lá pelos meus 18 anos de idade, em Cachoeira do Sul, cidade próxima ao município onde atualmente moro, Santa Cruz do Sul. Apaixonado desde criança pelos livros – o objeto, a leitura, textos, textura, cheiro, etc – eu me alfabetizei por conta de outra paixão, o futebol. Aprendi a ler sozinho por intermédio do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 1970, com cinco anos de idade, e desde então a leitura virou uma constante em minha vida. É o maior prazer do mundo, e literalmente ao alcance da mão. Para escrever, foi um passo natural, e cheguei na escola já me achando “o cara”, pois já sabia ler. Anos depois, tirei nota máxima na prova de Redação para ingressar no curso de Letras da Univale, hoje adquirida pela Ulbra, o que chamou a atenção da direção do Jornal do Povo, hoje um dos braços de informação do Grupo Vieira da Cunha. Fiz um bom trabalho por lá e em maio de 1991 ingressei na Gazeta Grupo de Comunicação, onde fiquei até 2020.
P – E como foi sua chegada na escrita de livros?
R – A faculdade era particular, como cantou Martinho da Vila. Para ajudar meu pai e como complemento de renda como jornalista, profissional que sempre ganhou muito abaixo do que faz, eu vendia poemas nas ruas, bares e na própria universidade. Datilografava numa máquina de escrever Olivetti Lettera, reproduzia em xerox, grampeava, e ia para a luta. Publiquei dois livros neste formato independente: Temporal do Tempo e Energia Clandestina. Ambos venderam bem e já não existem mais a não ser pelos exemplares que guardei para um dia mostrar para os meus netos e dizer para eles que o vô já foi um marginal. Quando a Gazeta inaugurou a sua editora fui então convidado a participar como autor/cobaia. Em 2011 saiu meu primeiro livro de poemas por uma editora, de fato, o Cellophane Flowers, e foi um sucesso, graças a Deus. Edição esgotada. De lá para cá vieram mais três livros de poemas: Sleeping Bag, 36 – fotos com poesia e Stupidman (Editora Vírtua) sendo que este último, foi o mais vendido numa das feiras do livro de Santa Cruz do Sul.
P – Como chegaste à ideia do Sarau Literário?
R – Por paixão e necessidade. Com meu desligamento da Gazeta em 2020 eu precisava fazer algo para me sustentar. E que me desse prazer. A promessa de um “religamento” seis meses depois, não se cumpriu, e eu decidi então ser o dono do meu próprio nariz aproveitando o bom trabalho e o respaldo de tudo o que havia feito até então. O sarau está indo para o seu terceiro ano de existência, em setembro, com sede em Santa Cruz, mas com boa distribuição mensal nos municípios próximos e na capital gaúcha. Hoje, a pergunta que sempre me faço é: por que eu não fiz isto há mais tempo? E a pergunta que sempre me fazem quando estou na capital é: por que tu não vem morar aqui?
P – Como tu sustentas uma publicação no papel? Como resistes?
R – Por mais incrível que isto possa parecer, o que dá sustentação ao sarau, seu charme, elegância e diferencial, é justamente o fato de ele poder ser lido impresso, no papel. Por ser um veículo de conteúdo literário e cultural, não há preocupação com o factual, a notícia, em si, e sim com o bom texto, de qualidade e acessível. O factual quem se interessa tem no celular, nas redes sociais, e o impresso entrega de forma atrasada e obsoleta no dia seguinte. Está com os dias contados se não investir em algo novo, a começar por um bom time de articulistas. Só vai sobreviver aquele impresso que tiver bons cronistas e apostar em um conteúdo menos convencional, menos copia-e-cola, em nichos de informação e na contra-notícia. O leitor não aguenta mais tanto feijão-com-arroz. Ao mesmo tempo, tenho um bom número de patrocinadores/apoiadores com uma tabela de preços acessível, dentro da realidade econômica de nosso Estado, o que atraí em vez de espantar. Na verdade, todos podem colaborar para que o sarau continue existindo mandando um pix de qualquer valor para 57526826068. Pensem bem: eu poderia estar roubando, sequestrando, aplicando golpes, mandando nudes…
P – O que publicas mensalmente?
R – Basicamente crônicas, pequenos contos, poesia, resenhas, trechos de romances, crítica literária, ensaios, os movimentos iniciais de algum livro que está para ser lançado e um que outro texto dirigido para um que outro tipo de manifestação artística como, por exemplo, a música, o cinema e as artes visuais. Mas o foco é mesmo a literatura. A poesia já foi o carro-chefe. Hoje a coisa tá mais equilibrada.
P –Não pensas numa Revista Literária virtual? Como ves a Literatura RS e como era tua relação com a Paranhana Literária?
R – O sarau, de uma certa forma, é também virtual a partir do momento em que transita pelas minhas redes sociais. Mas como sou homem do impresso, por enquanto ele segue sendo pensado para o papel, com a boa diagramação do Marcio Machado a partir de um projeto gráfico criado pelo Derli Gonçalves, dois grandes artistas do jornalismo impresso, dois grandes amigos, que tenho a sorte de ter ao meu lado. Fui muito amigo também do Doralino Souza, da Paranhana, e concedi uma longa entrevista para uma edição que, em função de seu prematuro falecimento, não foi publicada. Talvez um dia ainda seja, não sei. Doralino, antes de partir, conversava comigo sobre a possiblidade física de sua revista. Vínhamos trocando ideias diariamente sobre isto, mas infelizmente não deu tempo de concretizar algo que poderia ter sido grandioso. Conheci o Dora na segunda edição da Feira do Livro do Chalé da Praça XV e foi amor à primeira vista, uma empatia imediata. Sinto muito a sua falta.
P – Algum novo livro?
R –Sim, hoje em dia, com o sarau, tenho muito mais tempo para ler e escrever. Está bem encaminhado um novo livro de poemas inéditos; um livro de contos curtos bem ao estilo Doralino; um romance ambientado na Amsterdam que morei na virada do século; e um de crônicas, de memórias, histórias do tempo em que fiz jornalismo diário e que só poderá ser publicado de forma póstuma em função de sua franqueza. Uma espécie de acerto de contas (risos!). Mas de mais imediato, mesmo, está um livro de haicais inspirados em alguns autores de minha predileção, que envolve de Jack Kerouac até Alice Ruiz.
P – Como vês as Feiras de Livros?
R – Como um espaço fundamental para a propagação do livro e de sua efetiva leitura, ao mesmo tempo que permite o contato direto entre o autor e o público leitor. É muito bom, também, como um momento de encontro entre os escritores, para a troca de ideias, criar planos em conjunto, o intercâmbio, enfim. A atividade da escrita é solitária, mas nestes momentos a gente pode extravasar um pouco. A Feira do Chalé, por exemplo, tem sido um espaço importante de comércio e parceria, tirando todos de seus casulos e nos colocando em contato com o chope e o ar puro (risos!). Escritor encastelado não rende, não vende. E não por acaso que nosso querido Adeli, o mentor de tudo isto, foi contemplado com um prêmio Açorianos, um dos mais importantes da América Latina, por suas iniciativas, guerreiras, de incentivo à leitura. Muito justo e louvável. E depois desta entrevista, então, mestre Adeli vai ficar ainda mais pop pop pop po p. Mas sem perder a ternura. Jamais!
