A liminar do ministro Alexandre de Moraes, que suspende a vigência da Lei da Dosimetria até esta ser submetida ao Supremo, vai agravar a briga entre o Supremo e o Congresso. Ao aprovar a lei, o Congresso demonstrou que pode ter maioria a favor de Bolsonaro, tanto pela Lei da Dosimetria, quanto futuramente por um indulto ou anistia.
Lula fez o que pôde e vetou o projeto. O Congresso, tentando demonstrar que também pode muito, recusou o veto de Lula. Como era inevitável, o Supremo foi chamado a decidir sobre a eventual inconstitucionalidade da lei. E o ministro Alexandre de Moraes, antes que alguma decisão fosse proferida em favor de um dos condenados pela tentativa de golpe, baixou a medida que suspendeu a vigência da lei.
Agora, na briga entre o Congresso e o Supremo, vai sobrar para Lula. É normal que, em situações radicalizadas como essa, Lula seja acusado de ter controle sobre o Supremo e ter determinado esta decisão. Eleitoralmente, para Lula, é mais um problema, depois da rejeição do veto e da recusa de Jorge Messias para o Supremo.
Mas tudo isso pode ter sido compensado pelo êxito de sua visita aos Estados Unidos e a longa reunião com Trump para discutir o contencioso entre os dois países. A direita estava mobilizada aguardando que, nessa reunião, Trump decretasse que o PCC e o Comando Vermelho seriam organizações terroristas, o que lhe permitiria intervir, policialmente e até militarmente, no combate a esse suposto terrorismo. Isso, porém, não aconteceu e é natural que não tenha acontecido. Nunca aconteceu de Trump se reunir com o presidente de algum país para declará-lo um perigo terrorista: não fez isso com Maduro, da Venezuela, nem com o Irã. Por que iria fazer justamente com o Brasil?
No fundo, a expectativa da direita era que o encontro entre Lula e Trump tivesse algum momento constrangedor para o Brasil. E foi indisfarçável a decepção do bolsonarismo quando o encontro durou cerca de três horas e foi cordialíssimo, de acordo com as fotografias publicadas em seguida. A reação do bolsonarismo foi dizer que não houve, durante o encontro, a habitual entrevista coletiva dos dois presidentes, um ao lado do outro, cumprimentando-se sorridentes. Não houve porque a diplomacia brasileira, a partir de sua embaixada em Washington, programou uma liturgia para o encontro que evitasse uma situação em que a impulsividade de Trump o levasse a algum comentário inconveniente.
Mas o bom humor de ambos, que se vê na foto publicada, demonstra que houve muita cordialidade na conversa e um bom entendimento a respeito do futuro da convivência entre os dois países. Lula voltou triunfante, ainda mais porque Trump, logo depois de se despedirem, publicou em sua rede social uma postagem que dizia: “acabo de ter um encontro com o dinâmico presidente do Brasil”; depois fez outra postagem confirmando a primeira.
Ao lado disso, Lula tem, para compensar as derrotas no Congresso, o início do programa do desendividamento, que beneficia até 80% das famílias brasileiras. E tem ainda o efeito acumulado de medidas sociais como a isenção do imposto de renda para salários até 5 mil reais. Isso recoloca a sua candidatura em posição vencedora, até porque as últimas pesquisas mostram que Flávio Bolsonaro parou de subir e Lula parou de cair.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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