Vamos reproduzir, com o máximo de fidelidade possível, o que foi o Carnaval organizado pela Rádio América, de São Paulo, que, sob o patrocínio de Coca-Cola, armou um palanque em pleno asfalto paulista e pôs-se a convocar o povo para brincar.
Os caros leitores uagaenses terão uma ideia do episódio, através da transcrição, aqui, das palavras do locutor que comandava a coisa.
“Senhoras e senhores, com um palanque armado especialmente para este baile público que a Rádio América, de São Paulo, Brasil, transmitirá com exclusividade, estamos iniciando as nossas atividades carnavalescas. Graças ao alto patrocínio de Coca-Cola, o paulista poderá brincar à vontade.
[PAUSA] Quem foi que disse que paulista não é carnavalesco? Quem foi que disse que Coca-Cola não é refresco? O paulista também sabe brincar Carnaval, amigo ouvinte. E é por isso que a Rádio América, neste instante, convoca o povo para aqui, para diante deste palanque, para neste momento [ou melhor dizendo] para dentro de alguns instantes iniciar este baile público, no qual o povo de São Paulo terá oportunidade de mostrar que também sabe brincar… Coca-Cola pra refrescar, este palanque para você brincar… Venha você, meu caro ouvinte, venha para diante do palanque da Rádio América brincar seu Carnaval… Quem foi que disse que paulista não gosta de Carnaval?”
[COMEÇOU A JUNTAR POVO]
“Alô, Fulano… deste lado já estão chegando os primeiros foliões.”
“Alô, Beltrano… aqui também já começa o povo a se juntar para os folguedos momesmos…
Ouvintes da Rádio América, dentro de poucos minutos, através desta emissora, a transmissão de um estupendo baile carnavalesco, com a alegria espontânea do paulista… É uma lenda esta história de que paulista não sabe brincar carnaval. Paulista gosta de carnaval sim… Venham todos, venham brincar o Carnaval.” [E FOI CHEGANDO POVO. FOI CHEGANDO POVO]

“Alô, Fulano… Providencia aí um policiamento mais efetivo, porque já se faz sentir aqui, diante do nosso palanque, a urgência de certas contenções…”
“Perfeitamente, Beltrano… Aqui também o povo invadiu o espaço destinado às danças e está junto ao nosso palanque ouvindo a nossa transmissão…”

“Exato… Quem foi que disse que o paulista não sabe brincar o Carnaval… E com um gole de Coca-Cola, tá tudo legal… Mas, atenção por favor… O que não está legal é este ajuntamento aqui diante do nosso palanque… O senhor aí, por favor… Um pouco mais para trás… Assim não é possível, meu caro amigo… Alô, Fulano…”

Trecho do livro “Rosamundo e os outros” livro do escritor e jornalista Sérgio Porto, mais conhecido pelo seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. O livro é o terceiro volume da série em que o autor apresenta a sua família fictícia e ilustre, utilizando seu humor e crônicas para satirizar a sociedade e os costumes brasileiros da época.
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
*As opiniões dos autores de artigos não refletem, necessariamente, o pensamento do Jornal Brasil Popular, sendo de total responsabilidade do próprio autor as informações, os juízos de valor e os conceitos descritos no texto.
