(Resenha – Parte Um)
Adeli Sell
Há uma sutileza no título: “Uma história” e não é: História!
Mostra que a autora – Mary del Priore – teve o cuidado de não se arvorar de nos legar “A História da velhice”, mas “Uma história da velhice no Brasil”.
Mesmo com esta modéstia e cuidado acadêmico, a autora nos apresenta dados vastíssimos sobre as pessoas idosas, ao longo de nossa História, em especial os séculos XIX e XX.
Ela trata tanto de homens como de mulheres. Num primeiro momento parece que havia só homens, mas é sobre eles que sempre houve mais dados escritos.
“Viver é se desfazer no tempo”, de Rosa Monteiro, uma frase lapidar que a autora nos traz para a reflexão.
Mary del Priori dividiu o livro nos capítulos que seguem:
– Velhos até os tempos da Independência;
– Tempos novos para os velhos;
– Velhos numa República Velha;
– A troca do velho pelo idoso;
– Por último, mas não menos importante.
Não menos importante quando ela fala da troca da expressão “velho” por “pessoa idosa”, sendo que ao final do livro ela lembra que agora se trata sempre o velho como PESSOA IDOSA.
Quando é que se fica velho?
Sempre foi a pergunta que nos perseguiu e ainda nos persegue.
Aos 60, 70 ou 80 anos?
Pela leitura de suas páginas havia tempos que não se poderia pensar numa legião de “velhos” com 60, 70, 80 anos. Agora, alguns tantos passando dos 90 e já se fala em centenários e isto que não estamos em nenhuma “zona azul” do mapa.
A palavra “velho” ou “velha”, assim como “velhice”, é quase invisível nos documentos até bem recentemente.
Uma história da velhice é assunto complexo, pouco estudado, rico de metamorfoses e varia de um tempo para outro.
A autora optou por apresentar como os velhos se viam. Como contaram suas vidas.
Terra à vista, e os velhos também…
Um seminarista via os indígenas velhos como seres superiores. E os descreve.
E dizia que nossa longevidade é porque entre os povos originários não havia avareza, desconfiança, intrigas, invejas e ambição.
A autora nos relata o processo de aculturamento dos indígenas, a miscigenação e alerta que em Vila Nova de Oliveira havia um velho que se lembrava da fundação do lugar, tinha 107 anos.
Muitos visitantes e naturalistas reconheceram a longevidade entre os povos originários.
A velhice também apresentava uma ambiguidade. De um lado a sabedoria, de outra, as doenças.
A velha bruxa, a índia de seios caídos.
O que mais impressionou os primeiros cronistas foi a “índia velha”.
Faziam-se desenhos e pinturas que remetiam a preconceitos europeus, onde as velhas se comparavam a bruxas.
Mas foram nossas “índias velhas” que fizeram a miscigenação, que ensinaram como usar chás, plantas e comidas.
Velhice e feiura
O Renascimento criou estes conceitos. E a valoração estética veio com o europeu.
Gregório de Matos chamava estas mulheres de “jabiracas”. Na Quaresma bandos de jovens gritavam: “serra a velha, serra velha”.
Santo Agostinho também não aceitava que o velho pudesse ter beleza.
Frei Vicente do Salvador relata os maus tratos, o desdém, a crueldade contra velhos que não tinham mais serventia.
Eis que surgem as Santas Casas pelos fins do século XVIII para cuidar dos desvalidos, em especial dos velhos.
Velhice = impotência e menopausa
Mary del Priori relata procedimentos os mais variados de velhos contra a impotência, como de mulheres na menopausa, para ativar o desejo sexual. Um tanto quanto exótico para as mentes atuais.
Mas é assim a Metamorfose da vida. O surgimento de movimentos que tratam do envelhecer é recente, como a produção de livros, rodas de conversa, LIVEs, Manuais. São exemplos: Associação Movimento Sociedade sem Idadismo – www.idadismo,net – Cooletivo Metamorfose da vida – www.coletivometamoerfosedavida.com.br
Na jovem Colônia, os velhos.
Falar da pessoa idosa no Brasil, mesmo nos dias quecorrem, depois do Estatuto da Pessoa Idosa e outras normas legais já é um exercício complexo, imaginem os leitores nos tempos da Colônia, mas a autora conseguiu nos trazer elementos importantes.
Salienta o grande número de reinóis – portugueses – como a mestiçagem. Cita um historiador admirado pela idade avançada de negros em atividade. Fala do Pe. Antônio Vieira que viveu 89 anos. José Teófilo de Jesus, 90. Não há estatísticas, é claro.
O poder do velho
O chefe de família se fazia presente na hora de escolher parceiros para os filhos.
Muitos casais recorriam à Igreja para casar-se só ao final da vida, pois tinham medo de ir para o inferno.
Independência na velhice.
Velhos detinham saberes. Octogenários senhores de fazendas comandavam as lides. José Bonifácio já velho e mirrado exercia um poder muito grande.
Ganhar e produzir eram o objetivo e a preocupação dos velhos poderosos até o fim de suas vidas. Não previram que o mundo que construíram iria ruir. E seus netos acabariam desclassificados pelo descenso social.
Elas, viúvas
Havia muitas, pois vivemos as guerras Cisplatinas, incluindo a do Paraguai. Muitas ficavam sem eira nem beira. O resultado era cidades de mulheres. No final do século XVIII em São Paulo 45% dos lares eram matrifocais. Como hoje morriam mais homens que mulheres.
Apesar de não ter apresentado dados sobre o RS, vale lembrar que a situação foi igual na Guerra dos Farrapos, já no século XIX.
Nas áreas rurais ou em torno das cidades, velhas viviam do produto de suas roças e sítios. Goiabada, marmeladas, tudo era feito por mulheres. Lavar e passar roupa virou uma verdadeira indústria: tudo feito por mulheres.
Velhos escravos e escravos velhos
Lembrando que já em 1530 o Brasil começou a receber escravos e com eles veio uma maneira de ver e viver a velhice. Envelhecer era um dom dos deuses. Idosos ganhavam dignidade.
Na África “velho’ e “velha” nunca foram termos pejorativos. Os velhos detinham as tradições e muitos velhos eram considerados os “ancestrais”. Eram guardadores e transmissores das tradições.
Num estudo do Rio, velhos eram em torno de 15%, um índice alto no espectro de nossa história.
(Fim primeira parte)
