Vicente Rauber*
O INPE (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial) e a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) já informaram: os eventos climáticos serão mais frequentes e poderão ser maiores, especialmente no RS.
Os desastres climáticos continuarão, porque o sobreaquecimento global médio continua crescendo. O seu limite crítico de aumento de 1,5ºC em relação a 1850 (início da Segunda Revolução industrial) já foi ultrapassado em 2024. Em 2025 continua subindo e já atingiu a marca dos 1,63ºC de aumento. Isto não ocorre por acaso, a emissão dos gases de efeito estufa – GEEs – continua forte e até aumentando.
Podemos e devemos transformar nossas cidades em regiões mais protegidas, belas e saudáveis.
O saneamento básico, integrado ao meio ambiente, é o instrumento elementar mais fundamental e necessário. Não pode continuar sendo uma política pública completamente secundarizado, sem os procedimentos necessários pelos municípios, seus titulares, devidamente auxiliados por estados e União.
Neste artigo, vamos destacar uma verdadeira máquina ambiental na obtenção de cidades com clima melhor, menos poluição e que transformam GEEs em fonte de recuperação da natureza, para o bem do Planeta.
As árvores e outras vegetações podem realizar esta conquista. São necessárias muitas árvores, a ponto do meio urbano conviver com florestas, jardins e muita vegetação.
A OMS – Organização Mundial da Saúde – recomenda 36 m² por habitante, nunca ter menos de 12 m².
Usamos o exemplo de Porto alegre, que ainda é tida como a capital mais arborizada do Brasil, mesmo estar sendo deflorestada indevidamente. Na internet consta a informação de possuir 17 m² por habitante. No último verão apresentou um calor insuportável e insalubre, com forte presença de raios ultravioletas. Certamente necessita constituir os 36 m² por habitante recomendados pela OMS, no mínimo.
Árvores e vegetação usam os GEEs para transformar cidades e ajudar o Planeta
Como estas verdadeiras máquinas ambientais agem? Para crescer e manter-se necessitam realizar a fotossíntese, retirando da atmosfera GEEs e outros gases poluentes e devolvendo oxigênio purificando ainda mais o ar.
Captam o enxofre, gás poluente que ataca o sistema respiratório das pessoas e animais, para gerar a clorofila, que captará o calor necessário à fotossíntese. Com esta captação do calor e a sombra irá amenizar o clima.
Para realizar a fotossíntese captará o principal e maior GEE, o dióxido de carbono (CO2), incorporando o carbono (C) e liberando a molécula de dois átomos de oxigênio (O2), indo purificar o ar.
Ainda realiza a captação de mais dois importantes GEEs, o metano (CH4) e o monóxido de carbono (CO), além de poeiras, fuligem, cinzas e até metais pesados e outros. Assim purificam o ar e impedem que estes poluentes cheguem ao solo.
Medellin, hoje premiada como a “cidade da eterna primavera” dá o exemplo.
Isto funciona? O exemplo contundente vem da Colômbia, da antiga capital mundial do narcotráfico, Medellin. Esta cidade de 2,5 milhões de habitantes integra uma região metropolitana de 5 milhões de habitantes, circundada num vale profundo (Aburrá) pelas montanhas da Cordilheira dos Alpes, não conseguia dissipar o calor e a poluição. O trágico ápice foi registrado pela Universidade Antióquia (local), em 2016, quando houve 1971 mortes prematuras.

O floresta convive com o meio urbano
Rapidamente o programa de arborização foi acelerado, com a implantação de 30 corredores verdes, envolvendo todas as avenidas, águas e grandes parques. Com sementes das árvores locais, inclusive frutíferas, misturadas, houve semeaduras, hoje formando verdadeiras florestas, incluindo animais, que convivem com o meio urbano. São aproximadamente 880.000 árvores e mais 2,5 milhões de pequenas plantas ocupando todos os espaços possíveis, inclusive as paredes cegas de edifícios, como fez a própria prefeitura local. Segundo a Universidade, a temperatura média anual reduziu entre 2 a 3ºC, a poluição reduziu muito. Hoje, Medellin é premiada internacionalmente como a “cidade da eterna primavera”.
Medellin pode ser referência para qualquer município.
O exemplo é perfeitamente aplicável a quaisquer municípios, sempre ajustando características locais . Grandes centros e suas regiões metropolitanas como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto alegre, as capitais do nordeste e norte e demais, seriam muito beneficiadas, de forma muito eficiente e a custos nada altos, transformando-se em referências mundiais. O Planeta agradecerá profundamente.

Prefeitura de Medellin
Registre-se que, mesmo com todas as excelências ambientais acima registradas, as árvores e vegetações, por si só, não são suficientes para zerar todas as poluições, incluindo os GEEs, geradas na maioria dos meios urbanos.
A arborização ampla, juntamente com o saneamento básico e a substituição dos veículos à combustão por veículos elétricos podem criar cidades seguras, saudáveis, belas e com muta qualidade de vida, além de ajudar a estancar o aquecimento global e serem fundamentais na recuperação do Planeta.
O Ministério do Meio Ambiente está promovendo, principalmente com a participação de gestores municipais, a criação do PLANAU – Plano Nacional de Urbanização Urbana -, que deverá incentivar e impulsionar a transformação ambiental do meio urbano, especialmente naqueles municípios que já estarão desenvolvendo seus programas.
A Amazônia produz os rios voadores que levam chuvas ao sudeste brasileiro
Cabe também citar que as árvores são armazenadoras de água, retendo parte das chuvas e assim reduzindo alagamentos. São elemento essencial da técnica “cidade esponja”.
A árvore utiliza parte da água retida para seu consumo, o restante, ao receber calor, devolve à atmosfera. Nas grandes arborizações, em especial na floresta amazônica, esta evapotranspiração írá formar blocos de nuvens, neste caso conhecidos como rios voadores, que levarão chuvas a diferentes regiões da América do Sul, e cujo destino preferencial é o super povoado sudeste brasileiro. Os deflorestamentos e as queimadas, que não são vantajosas a ninguém, influem diretamente na formação de direção destes rios voadores, sendo mais um forte elemento a prejudicar o clima. Não por acaso, o sudeste seguidamente sofre ou com o excesso de chuvas ou com secas.
*Engenheiro Especialista em Planejamento Energético e Ambiental.
– Gestor Público e de empresas
– Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental
Em Porto Alegre
– Ex-Diretor do DEP – Departamento de Esgotos Pluviais (em dois períodos);
– Coordenador do Fórum Municipal de Saneamento e Meio Ambiente;
– Co-fundador do Comitê da Bacia do Rio Gravataí;
– Ex-Diretor do Demhab – Departamento Municipal de Habitação;
– Criador do Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia.
No Estado RS
– Diretor Presidente e Conselheiro de Administração da CEEE – Companhia Estadual de Energia Elétrica;
– Conselheiro de Administração da CGTEE e SULGAS;
– Diretor do BANRISUL – Banco do Estado do RS.
Na União
– Diretor da Petrobras/REFAP
– Assessor Esp da INNOVA;
– Conselheiro de Administração do ONS – Operador Nacional de Energia Elétrica – e do MAE – Mercado Atacadista de EnergiaElétrica.
